Das bobagens que eu escrevo

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Começou aos poucos, despretensiosamente.

- Querido, você precisa de um corte de cabelo mais moderno...

- Mas eu gosto como está.

- Não é nada radical: a gente corta um pouquinho aqui e ali... Vai ficar ótimo.

E foram ao salão e ele cortou o cabelo como ela sugeriu. Ela lhe deu um grande abraço e um beijo e comentou como tinha ficado lindo assim.

Na outra semana...

- Minhas amigas adoraram seu cabelo novo. Todo mundo achou que você rejuvenesceu uns 10 anos.

Ele sorri.

- Agora falta você trocar essas roupas, né, querido?

- Que tem de errado com elas?

- Ultrapassadas. Gastas. Tá na hora de renovar o guarda-roupa.

- Ana, você tá exagerando. Gosto das minhas roupas, são confortáveis.

- O problema é que só você gosta delas. Você e quem vivia no começo do século passado. Poxa, André. Que tem demais você deixar eu dar um trato no seu visual? Faço isso porque gosto de você e quero te ver bem.

- Mas eu tô bem.

- Pode ficar melhor.

E lá estavam no shopping, renovando todo guarda-roupa do André.

No domingo, Ana ficava de cara feia porque André ia se encontrar com os amigos para um chopinho. Até que num domingo...

- André, nada de chopinho hoje. Vamos ao aniversário da Rebeca.

- Que Rebeca?

- Minha amiga, ué. Lá do escritório.

- Ah, aquela que começou lá na semana passada? Já são amigas?

- Claro. Ela é super legal, uma moça antenada. A gente sempre almoça junto.

- Sempre significa há uma semana, né?

- Ah, André, não implica.

- Fico uma hora com meus amigos e depois a gente vai.

- Ah, não! Vai acabar ficando mais tempo, te conheço. Não quero chegar tarde.

Foi aí que ele parou de tomar chopp com os amigos aos domingos. Porque sempre havia um outro compromisso inadiável com a Ana. E ai dele se protestasse. “Todos os namorados de todas as minhas amigas vão”, seguido de um muxoxo. Aí, ele ia também.

Em um ano, havia trocado de cabelo, roupas, carro, apartamento e amigos. Seus amigos agora eram os namorados das amigas de Ana. Uma certa manhã, ao acordar, olhou-se no espelho. Quem era aquele? Não se reconhecia. Ficou assim, por vários minutos, desorientado. Ana levantou e disse “Bom dia!”, mas ele não respondeu. Diante do silêncio, Ana apareceu na porta do banheiro.

- O que houve, André? Você está bem?

- Não sei.

- Como assim, não sabe?

- Simples, não sabendo. Não sei mais o que sinto, não sei nem mais quem eu sou.

- Ora, você é o André, meu namorado...

- E tudo se resume nisso, né, Ana? Não sou nada além de “o namorado da Ana”.

Ana não entendeu. Entendeu menos ainda quando ele começou a arrumar lentamente suas coisas dentro da mala. Estava triste, muito triste. Mas também aliviado porque podia agir por conta própria.

- Onde você vai? – perguntou Ana, chorando copiosamente.

- Não sei.

Ele realmente não sabia. Mas sabia que, onde quer que fosse, iria, finalmente, encontrar-se.

“Tudo se complica porque trazemos nosso equipamento psíquico. Nascemos do jeito que somos: algo em nós é imutável, nossa essência são paredes difíceis de escalar, fortes demais para admitir aberturas. Essa batalha será a de toda a nossa existência.” - Lya Luft (Perdas e Ganhos)

"O que você me pede eu não posso fazer
Assim você me perde e eu perco você
Como um barco perde o rumo
Como uma árvore, no outono, perde a cor
O que você não pode eu não vou te pedir
O que você não quer, eu não quero insistir..." - Engenheiros do Hawai (Piano Bar)

 

5 comentários:

Daniel Savio on 15 de setembro de 2010 20:27 disse...

Ficou bonito o novo layout...

Mas é uma melda quando querenos nos mudar tanto =P

Fiquem com Deus, amiga e sobrinho.
Um abraço.

Lulu on 15 de setembro de 2010 20:39 disse...

Belo texto Tathi.. Vc pode mudar roupa, cabelo mas a sua essência, os seus valores são coisas imutáveis.
Big Beijos

on 15 de setembro de 2010 22:35 disse...

Muito legal o texto Tathy,não devemos deixar de ter vontade propria,personalidade,pq qdo isso acontecer não seremos nós mesmo ...perderemos a identidade né.Bjus

Luma Rosa on 16 de setembro de 2010 00:07 disse...

Conviver é tão difícil, aceitar aquilo que achamos defeito, mais ainda! O que é defeito pra mim pode não ser para o outro. Talvez a chave mestra esteja sempre em se lembrar do início, o porque aquela pessoa te encantou, justo porque quando se esquece o encanto, tudo fica muito pé no chão, muito real, sem romance, sem tesão!
Adorei o novo lay! Gosto muito do trabalho da Márcia Regina!!
Boa semana! Beijus,

Mauri Boffil on 16 de setembro de 2010 12:09 disse...

ai, mas e complicado tentar mudar o outro... tenho uma amiga que ela ta se sentindo violentada num relacionamento onde o namorado dela quer que ela não fume, não beba, não fale palavrão...
Beijooos

 

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